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quarta-feira, 5 de outubro de 2022

 


MOMENTO HISTÓRICO EM QUE SE DEU O ANÚNCIO DA UMBANDA

 

 

“Nós não reconhecemos diferenças nem distinções na família humana: como brasileiros serão tratados por nós o chinês e o luso, o egípcio e o haitiano, o adorador do sol e o de Maomé. Sejamos nós o primeiro povo que apresente o quadro prático dessa paz divinal, dessa concórdia celeste, que deve, um dia, ligar a todo o mundo e fazer de todos os homens uma só família.”[1] 

 

Introdução

 

O texto acima, de José Bonifácio, conhecido como Patriarca da Independência do Brasil, demonstra que, desde aquela época, a vontade prevalecente, pelo menos naqueles que foram os responsáveis pela independência e pela formação do novo País, era de que o Brasil fosse um país de tolerância, amor e fraternidade.

 

Como veremos, ao longo desta obra, também esse é o sonho de nossa Umbanda. Quando o Caboclo da Sete Encruzilhadas chegou pela primeira vez na mesa kardecista, da Aliança Espírita do Rio de Janeiro, no dia 15 de novembro de 1908, ele e as entidades que com ele chegaram não foram aceitos por se identificarem como Caboclos e Pretos Velhos. Então ele anunciou que no dia seguinte, na casa de seu aparelho, seria anunciada por ele uma nova Religião, onde todos espíritos, independente daquilo que haviam sido em encarnações passadas poderiam se manifestar e trabalhar para a caridade. A nossa semente, plantada naquela noite de 15 de novembro de 1908, em Niterói, foi a da igualdade, da fraternidade entre irmãos, da caridade e do amor ao próximo.

 

Ser, hoje, filho de Umbanda é, antes de qualquer coisa, cumprir com todas as determinações daquelas primeiras entidades, enviadas pelo plano espiritual, para dar seguimento a um trabalho cristão, sem preconceitos de qualquer espécie.

 

Ser filho de Umbanda, hoje, é poder dizer, como disse Paulo,

“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”. Timóteo 2 4:7

Mas, o que é o bom combate na Umbanda?

É a prática da caridade, é o amor em ação, é estar disponível sempre para o trabalhos das entidades, é deixar de lado as futilidades de uma sociedade sem Cristo, é respeitar as diferenças entre as pessoas, sejam elas religiosas, de gênero, de classe social; é compreender que não somos, nenhum de nós, melhores que os outros, mas tão somente diferentes; é não querer usufruir de ganhos materiais com um trabalho que não é seu, e sim das entidades; é respeitar a natureza, expressão máxima dos nossos Orixás. Para isso, é necessário ser um bom combatente, mas também sábio e amoroso, pois de nada valeria o filho umbandista que tivesse sabedoria, fosse amoroso, mas não combatesse o bom combate ou que quisesse ser um bom combatente, mas que discriminasse seus irmãos.



[1]José Bonifácio, o Patriarca da Independência”, de Venâncio F. Neiva, Irmãos Pongetti Editores, 305 pp., RJ, 1938, ver p. 278.

 

 


sexta-feira, 26 de agosto de 2022

 


ELES ANTES


LIVRO  DA ESPERANÇA  Chico Xavier, pelo Espírito  Emmanuel 


“Quando deres um festim, não convides teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus vizinhos ricos, para que não suceda que também eles te tornem a convidar e te seja isso recompensado.”    (Lucas, 14: 12)

“Por festins deveis entender, não os repastos propriamente ditos, mas a participação na abundância de que desfrutais.” ( Evangelho Segundo o Espiritismo - cap. 13, Item 8)


“Quando derdes um festim, disse Jesus, não convideis para ele os vossos amigos, mas os pobres e os estropiados”. Decerto que o Divino Orientador não estabelecia a desistência das relações fraternais, nem o abandono do culto às afinidades do coração. 

Considerando, porém, a Humanidade por família única, induzia­-nos a observar os irmãos menos felizes na categoria de credores principais de nossa atenção, à maneira de enfermos queridos, que esperam no lar a prioridade de assistência por parte daqueles que lhes comungam o mesmo sangue. 

Nas celebrações da alegria, é inútil convocar os entes amados, de vez que todos eles se encontram automaticamente dentro delas. Recorda os que vivem no mundo, sob as algemas de austeras privações e partilha com eles as vantagens que te felicitam a vida. 

Se exerces autoridade, é natural te disponhas à sustentação dos companheiros honestos que te apoiam a luta. Antes deles, no entanto, pensa no amparo que deves a todos os que padecem aflição e injustiça. 

Obtiveste merecimentos sociais elevados pelos títulos de competência que granjeaste a preço de trabalho e de estudo, e, com semelhantes valores, é razoável te empenhes no reconforto, a benefício dos que viajam no carro de tuas facilidades terrestres. Antes deles, contudo, atende à cooperação em favor dos que jazem cansados nas provas sem remédio. 

Desfrutas extensa possibilidade econômica, na qual é compreensível te devotes a obsequiar os amigos do teu nível doméstico. Antes deles, toda via, socorre os que esmorecem de fadiga e penúria, para quem, muitas vezes, a felicidade reside num sorriso amistoso ou num prato de pão. 

Amealhaste conhecimento e, nos tesouros culturais que adquiriste, é justo te aprazas nos torneios verbais de salão, enriquecendo o cérebro dos ouvintes que te respiram as normas superiores. Antes deles, porém, divide a luz que te clareia o mundo mental com os irmãos do caminho, que se debatem ainda, na noite da ignorância. 

Jesus não te pede a deserção dos círculos afetivos. Ele próprio, certa feita, asseverou aos companheiros de apostolado: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o meu senhor; chamo-­vos amigos, porque vos revelei tudo quanto ouvi de meu. Pai”. Com os amigos, entretanto, consagrou-­se primeiramente a aliviar a carga de todos os sofredores, como a dizer-­nos que todos podemos cultivar afeições preciosas que nos alentem as energias, mas à frente dos que choram, nos transes de dolorosas necessidades, é preciso, adotar a legenda “eles antes”.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

 

                                      NÃO VIM DESTRUIR A LEI  - PARTE 2

Continuação do Capítulo I

VI. Não cometais adultério.

Também, neste caso, esse mandamento era absolutamente necessário para uma multidão que se deslocava pelo deserto, em um ambiente onde as leis naturais não tinham força para impedir esse tipo de ato. Para nossos dias atuais, quando já temos critérios e valores morais mais fortes, esse mandamento possui, agora, um sentido maior de moralidade do que de pecado, como era visto naquela época. No Evangelho segundo o Espiritismo, em seu capítulo VIII, itens 5 e 6, podemos ler: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo o que olhar para uma mulher, cobiçando-a, já no seu coração adulterou com ela”. (Mateus, V:27-28)

6. A palavra adultério não deve ser aqui entendida no sentido exclusivo de sua acepção própria, mas com sentido mais amplo, Jesus a empregou frequentemente por extensão, para designar o mal, o pecado, e todos os maus pensamentos, como, por exemplo, nesta passagem: "Porque, se nesta geração adúltera e pecadora alguém se envergonhar de mim e de minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, acompanhado dos santos anjos" (Marcos: VIII:38).

Como vemos, no Evangelho de Jesus essa palavra toma um sentido muito mais amplo. O adultério não é mais o ato de ter relações sexuais fora do casamento, mas qualquer tipo de ato de corrupção poderá ser assim classificado. Além disso, Jesus, também deixa claro que pensamentos maus, sejam a respeito do que forem, podem ser considerados um adultério. Na passagem citada acima, do Evangelho de Marcos, aquele se envergonhar de Jesus também cometerá um adultério. Portanto, conforme colocado, a verdadeira pureza não está apenas nos atos, mas também no pensamento, pois aquele que tem o coração puro nem sequer pensa no mal. Foi isso que Jesus quis dizer, condenando o pecado, mesmo em pensamento, porque ele é um sinal de impureza. (Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. VIII itens 5 e 6). No tocante à sexualidade, a doutrina espírita o vê como um desperdício de energia sexual, sem amor.

Mas, adulterar não tem nesse mandamento somente o seu sentido comum de traição conjugal. Quando faltamos com a verdade, levando a que outra pessoa, por esse nosso comportamento, seja prejudicada, estamos também adulterando. Quando deixamos de cumprir o que prometemos ou deixamos de fazer aquilo que é nossa obrigação, também estaremos adulterando, já que prejudicaremos alguém com o nosso comportamento. Quando, estando em um negócio, comercial, industrial ou mesmo pessoal, lesamos alguém com atitudes desonestas, também estaremos adulterando. Enfim, qualquer comportamento nosso, que não condizer com a verdade ou com nossa obrigação, na sociedade, no trabalho ou em nosso lar, é também uma forma de adulteração.

VII. Não roubeis.

O roubo, por quem o pratica, é, normalmente, fruto da ambição, da inveja, do apego ao material e do esquecimento de que temos necessidade da evolução do espírito encarnado. O roubo seduz aos espíritos menos evoluídos por permitir obter algo, que não nos pertence, sob a conduta da lei do menor esforço. É claro que a injustiça social leva a muitos seres humanos recair no erro de roubar. No entanto, as condições em que esses espíritos reencarnaram foram previstas por eles mesmos quando do seu planejamento reencarnatório. Deste modo, podemos atribuir à fraqueza daquele espírito o fato de incorrer, novamente, neste erro. Mais grave ainda é quando esse roubo se dá em prejuízo de uma comunidade. Um exemplo disso é a corrupção política. Portanto, embora do ponto de vista material ou social se possa buscar uma explicação para uma ação desta, do ponto de vista espiritual não deixa de ser uma provável recaída do espírito em erros que já cometeu em outras encarnações. Este mandamento tem também uma explicação que se vincula às condições em que viviam os judeus, ainda errantes no deserto, quando Moisés recebe as Tábuas da Lei. Assim, além do caráter religioso, possui um caráter de moralidade para a população.

VIII. Não presteis testemunho falso contra o vosso próximo.

Também, neste mandamento, o sentido dele é maior do que imaginamos. Não é somente o acusar falsamente alguém, que está incluído aqui. Todos os tipos de mentira, que de alguma forma prejudicam um irmão, são também uma forma de prestar falso testemunho. Quando um ser humano dá início ou continuidade a um boato, uma fofoca, contra um seu irmão, estará incorrendo no erro de prestar falso testemunho contra aquele irmão. Quando me valho de uma falsa aparência de seriedade ou de honestidade, para me impor sobre um irmão, alegando suas faltas, também estarei prestando um falso testemunho. Quantas pessoas, que ocupam cargos que os tornam exemplos de comportamento, se apresentam, para a sociedade, com uma cara e no seu íntimo é absolutamente diferente. Também estes prestarão falso testemunho contra a sociedade.

IX. Não desejeis a mulher do vosso próximo.

Não podemos aqui, restringir esse mandamento a simplesmente desejar a mulher do próximo. Quantas pessoas, hoje, desejam tudo o que vêm com seus irmãos e, não podendo consegui-lo, tornam-se verdadeiros obsessores em vida, invejando a todos emitindo energias negativas contra todos, sentindo-se injustiçados e desamparados pela vida. Em nenhum momento se perguntam por que não têm aquilo que desejam. Não olham para si mesmos como os principais causadores de seus males, como o somos todos. No que diz respeito a desejar a mulher do próximo, nos dias de hoje, tendo em vista as mudanças por que passou a sociedade terrena, devemos lembrar que também às mulheres se aplica este mandamento. Os desejos, sejam provenientes da atração sexual, sejam das ambições materiais, são a raiz de todos os males. Se nos contentássemos com aquilo que temos ou usássemos apenas os meios legais e morais para obter mais, não incorreríamos em tantos erros, que nos geram responsabilidades a serem resgatadas durante esta ou em outra encarnação

X. Não cobiceis a casa do vosso próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu asno, nem qualquer das coisas que lhe pertençam.

Aqui, neste mandamento, temos uma recomendação que nos alerta para alguns de nossos principais erros, a inveja, a cobiça, a falta de respeito ao próximo e a maldade que buscam conseguir posições, propriedades e poderes, criando situações em que o ser humano busca aparentar ter ou ser quem, verdadeiramente, não é. Devemos evitar qualquer sentimento menos digno em nossos corações a fim de evitarmos ser pegos pela cobiça e a inveja.

Quem cobiça os bens alheios ainda não aprendeu, com Jesus, que há mais alegria em dar do que em receber. O Espírito Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, no livro Fonte Viva –– Lição 117 – nos ensina na mensagem intitulada “Possuímos o que damos”:

 

“Quem dá recolhe a felicidade de ver a multiplicação daquilo que deu.

Oferece a gentileza e encorajarás a plantação da fraternidade.

Estende a bênção do perdão e fortalecerás a justiça.

Administra a bondade e terás o crescimento da confiança.

Dá o teu bom exemplo e garantirás a nobreza do caráter.

Os recursos da Criação são distribuídos pelo Criador com as Criaturas, a fim de que em doação permanente se multipliquem ao infinito.

Serás ajudado pelo Céu, conforme estiveres ajudando na Terra.

Possuímos aquilo que damos.

Não te esqueças, pois, de que és o responsável pela condução da vida em que te encontras.

Cede ao próximo algo mais que o dinheiro de que possas dispor. Dá também teu interesse afetivo, tua saúde, tua alegria e teu tempo e, em verdade, entrarás na posse dos sublimes dons do amor, do equilíbrio, da felicidade e da paz, hoje e amanhã, neste mundo e na vida eterna”.

“É claro que, aquele que colocou em seus mandamentos: "Tu não mataras; tu não farás mal ao teu próximo" não poderia se contradizer fazendo deles um dever de extermínio. As leis mosaicas propriamente ditas, tinham, pois, um caráter essencialmente transitório". (Evangelho segundo o Espiritismo, 1995 cap. I item 2 p. 54)

Finalmente, Kardec, ainda no Evangelho segundo o Espiritismo, cap. I, nos comentários do item 2, nos diz o seguinte sobre esta lei:

"Esta lei é de todos os tempos e de todos os países, e tem, por isso mesmo, caráter divino. Todas as outras são leis estabelecidas por Moisés, obrigado a manter, pelo temor, um povo naturalmente turbulento e indisciplinado, no qual tinha que combater os abusos enraizados e os preconceitos hauridos na servidão do Egito. Para dar autoridade às suas leis, ele deveu atribuir-lhes origem divina, assim como fizeram todos os legisladores dos povos primitivos; a autoridade do homem deveria se apoiar sobre a autoridade de Deus; mas só a ideia de um Deus terrível podia impressionar homens ignorantes, nos quais o senso moral e o sentimento de uma delicada justiça eram ainda pouco desenvolvidos”.

Como vemos, as leis, trazidas por Moisés, são fruto de sua mediunidade (as chamadas leis divinas) de sua sabedoria (as leis chamadas de mosaicas, ao todo 613 mandamentos, é o nome dado ao conjunto de todos os mandamentos que, de acordo com o judaísmo, constam na Torá (os cinco livros de Moisés, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio).

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Caros amigos, vamos, a partir de hoje, começar a postar alguns textos sobre os capítulos do EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, buscando mostrá-lo de maneira mais simples e explicada. Esse trabalho está respeitando os princípios básicos do Espiritismo Cristão, expresso nas obras de Alan Kardec, Emmanuel, André Luiz e outros espíritos comunicadores, através de Chico Xavier e de outros médiuns respeitáveis e de honestidade e seriedade comprovadas. Nesta postagem falaremos sobre  o Capítulo I, NÃO VIM DESTRUIR A LEI.

CAPÍTULO I

NÃO VIM DESTRUIR A LEI

"Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir.
Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra.
(Mateus, cap. V, itens 17 e 18)

Quando perguntaram, a Nosso Senhor Jesus Cristo, qual era o maior dos mandamentos, Jesus respondeu: “Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo semelhante a este é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mateus, 22: 37- 40).

“Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lhes também vós, porque essa é a lei e os profetas” (Mateus, 7:12).

1.  1. A qual lei se refere Nosso Senhor Jesus Cristo, quando diz que não a veio abolir, mas, sim, cumpri-la?

 A lei que foi implantada por Moisés, para o povo hebreu, tinha duas características. A primeira, que ele designou como divina, representada pelas tábuas da lei, trazidas por ele do Monte Sinai. A segunda, a lei terrena, que veio se adaptando aos modos e costumes judeus, de acordo com sua época. A primeira, é imutável, a segunda como dissemos muda com o tempo e a cultura do povo. Jesus, quando fala que veio para cumprir a lei, refere-se à lei designada, por Moisés, como divina.

 2.   Qual é a lei divina que deve ser cumprida?

Como dissemos, esta lei, segundo Moisés, foi recebida no Monte Sinai e inscrita nas tábuas da lei. Trata-se, portanto, dos dez mandamentos.

Há mais de 3500 anos, Moisés recebeu no Monte Sinai os dez mandamentos. A forma pela qual se deu o processo de recepção dos ensinos, considerados de origem divina, é desconhecida. Segundo o que consta no livro do Deuteronômio

Pelos registros bíblicos, em Deuteronômio (5:6-21), após a fuga do Egito, no sopé do Monte Sinai, as Tábuas da Lei, que segundo ele, teriam sido escritas diretamente por Deus, lhes foram entregues, para que delas desse conhecimento ao povo hebreu. Como as duas tábuas originais foram quebradas, por Moisés, ao verificar que na sua ausência o povo havia construído um Bezerro de Ouro e o adorava – Voltou ao Monte e, lá, Deus teria escrito outras tábuas, conforme registrado em Êxodo (34:1).

Na literatura Espírita Cristã, supõe-se que esta comunicação ocorrido pela escrita direta pelo médium Moisés. recebeu pela escrita direta, em tábuas de pedra, um conjunto de dez  mandamentos sobre como deveria se comportar o ser humano em relação a Deus e a seu próximo. Esta forma de comunicação do plano espiritual não exige a presença de um médium psicógrafo, pois a escrita é feita diretamente pelo espírito.

Naquela época, os povos, em geral, e os hebreus, em particular, não respeitavam com tranquilidade as leis humanas. Por isso, seus líderes e sacerdotes, traziam leis que diziam provenientes diretamente de suas divindades. No caso dos hebreus, Moisés lhes apresenta as tábuas da lei com mandamento que eram provenientes de seu Deus único. Sabemos que Moisés foi um dos maiores médiuns da antiguidade. Por essa razão, a origem mais provável desses mandamentos é o próprio plano espiritual ao qual o líder judeu tinha acesso por sua já mencionada extraordinária capacidade mediúnica.

3.   Por que foram necessários os dez mandamentos e a lei de Moisés?

Os dez mandamentos, trazidos por Moisés,  nos dão uma síntese do que deve ser o comportamento do homem, preocupado com sua evolução e com tornar-se um bom ser humano.

Esses dez mandamentos, em conjunto com as determinações da lei mosaica, foram a forma de conseguir conduzir aquele povo, ainda bárbaro, aquelas doze tribos, durante a busca da terra prometida e, também, durante a construção do país hebreu. Flávio Josefo, um líder militar judeu, que viveu entre 37 d.C. e 100 d.C., escreveu um livro sobre os inúmeros conflitos entre judeus e romanos, além de suas guerras contra os diversos povos vizinhos, como os sírios, os cananeus, etc. Em suas narrativas podemos ver as barbaridades que eram feitas pelos judeus e contra eles. Foi para controlar essas barbaridades, assim como suas ocasionais idolatrias, que Moisés trouxe os Dez Mandamentos, assim como os 613 mandamentos de sua própria lei.

4.   Quais são os dez mandamentos da lei divina?

I. Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos tirei do Egito, da casa da servidão. Não tereis, diante de mim, outros deuses estrangeiros. – Não fareis imagem esculpida, nem figura alguma do que está em cima do céu, nem embaixo na Terra, nem do que quer que esteja nas águas sob a terra. Não os adorareis e não lhes prestareis culto soberano.

Naquela época, a idolatria, ou seja, o culto a ídolos, era, como dissemos anteriormente, muito comum. O caso mais clássico desse culto, entre os judeus, foi o do bezerro de ouro,  citado na Torá e na Bíblia. Os judeus,  mesmo tendo já visto e sentido a proteção do verdadeiro Deus, ao serem libertados do Egito, vendo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e disse-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu.  ....

3 Então todo o povo arrancou os pendentes de ouro, que estavam nas suas orelhas, e os trouxeram a Arão.
4 E ele os tomou das suas mãos, e trabalhou o ouro com um buril, e fez dele um bezerro de fundição. Então disseram: Este é teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito. (Êxodo, 32, 1, 3 e 4)

Outro exemplo disso, foi que, anteriormente, parte povo Judeu adorou, outros deuses, como, por exemplo, Baal. Este era uma divindade adorada em muitas comunidades antigas do Oriente Próximo, especialmente, os cananeus, que o veneravam como deus da fertilidade e era o principal deus de sua adoração. No século IX a.C., quando já era adorado, em Israel, o Deus único, Jezabel, originária das cidades Tíron e Sidon, casada com o rei Acabe de Israel,  tentou introduzir o seu culto entre os judeus, em oposição ao seu Deus único.

Assim, como vemos, de tempos em tempos, grupos de judeus, tornavam-se adoradores de mais de um deus, embora sua verdadeira religião já fosse, há muito, monoteísta; para evitar essa idolatria é que o primeiro mandamento fala de adorar a um único Deus.

II. Não pronunciareis em vão o nome do Senhor, vosso Deus.

Este segundo mandamento se deve ao fato de naquela época, como ainda hoje, as pessoas utilizarem o nome de Deus para conseguirem sucesso material. Assim, sempre que podiam, e ainda podem, as pessoas solicitavam a proteção de Deus nas suas buscas de bens materiais. Ainda hoje vemos isso em todas as religiões. Em algumas são promessas que são feitas, em outras a esperança de que a contribuição que dão volte multiplicada.

Em nossa religião, os pedidos de pessoas para que sejam feitos trabalhos para seu sucesso em negócios e ou em julgamentos onde questões materiais estão em disputa. Por qualquer motivo se pede a intervenção divina, de entidades e ou Orixás, para a resolução de seus problemas materiais. Na Umbanda devemos tomar muito cuidado com esses pedidos, evitando fazê-los, pois, não conhecendo toda a história que envolve o pedido, podemos estar solicitando algo que não é justo. As entidades, como entidades de luz, devem procurar, nesses casos, despertar nos fiéis a sua fé e mostrar-lhes que não estão desamparados e que, aquilo que for certo, deverá acontecer, pois, a energia positiva do Universo trabalhará nesse sentido. Nós médiuns, devemos evitar envolver as entidades do Terreiro, em demandas que nada têm de religiosas e muitas vezes injustas. Nós, os Umbandistas Cristãos, sabemos que existem muitos espíritos de menor evolução se aproveitam de pedidos como esses para aproximarem-se de quem o pede e do próprio médium que se propõe a fazê-los. Assim, este segundo mandamento nos faz lembrar que nada acontece no mundo, a não ser pela vontade divina, e que aquilo que nos acontece, nós somos, sempre, de alguma maneira responsáveis por isso. Além disso, não devemos pedir a Deus nada que não seja para a nossa própria evolução.

III. Lembrai-vos de santificar o dia do sábado.

Na Igreja Católica Romana esse mandamento fala em santificar ou guardar os domingos. No entanto, isso não muda o sentido do mandamento. Quando nos é dito para santificar o sábado, ou o domingo, a finalidade é fazer com que dediquemos pelo menos um dia em nossa semana para preocupar-nos com nosso espírito, comunicando-nos, com nossas preces com o plano espiritual, e harmonizando-nos com a Energia Divina. Este dia também deve ser usado, por aqueles que podem, para trabalhar em benefício dos irmãos. Indica, pois, a ideia de se guardar um dia da semana para a alma. Interpretando-se, ao pé da letra, pode parecer estranha, mas analisando de forma mais profunda entende-se que a ideia era a de se separar um tempo que seja da sua semana, ou seja do seu tempo vivido, para cuidar da alma, adorar a Deus e trabalhar em prol de sua obra.

IV. Honrai a vosso pai e a vossa mãe, a fim de viverdes longo tempo na terra que o Senhor vosso Deus vos dará.

A palavra honrar, nesta passagem do Evangelho, tem o sentido de respeitar, amar e reconhecer o valor dos pais, que criaram a oportunidade de que o espírito que habita nos filhos pudesse reencarnar. Além disso, ser grato a todo o trabalho que os pais tiveram para sua criação e educação. Por isso, esta passagem pode ser vista, no Evangelho, como o cumprimento da lei da gratidão filial. Ser grato aos pais é assumir a importância que tiveram e têm, para nós; é reconhecer o amor e o carinho que nos deram, assim como o seu trabalho de manter a família, visando tivéssemos um ambiente acolhedor e protetor para o nosso desenvolvimento, tanto físico quanto espiritual. Ser grato aos pais é ser grato a Deus pela oportunidade reencarnatória que foi dada ao espírito, naquele ambiente familiar. No Evangelho de Cristo, temos uma passagem onde Nosso Senhor Jesus Cristo, faz uma crítica aos fariseus, por não seguirem esse mandamento, quando vêm a Ele perguntar por que seus discípulos não lavavam a mão antes de comer. Ele lhes respondeu: 

“Então, chegaram ao pé de Jesus uns escribas e fariseus de Jerusalém, dizendo: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos quando comem pão. Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Por que transgredis vós também o mandamento de Deus pela vossa tradição? Porque Deus ordenou, dizendo: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser ao pai ou à mãe, que morra de morte. Mas vós dizeis: Qualquer que disser ao pai ou à mãe: “É oferta ao Senhor o que poderias aproveitar de mim, esse não precisa honrar nem a seu pai nem a sua mãe, assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus”. (Mateus, 15, vv 1 a 6)

 V. Não mateis.

Esta é uma recomendação que poderíamos tomar como óbvia. No entanto, a história das Tribos de Israel é cheia de assassinatos, mortes bárbaras e guerras de conquista. Assim, para aquele povo que ainda vivia tempos de crueldades e barbaridades. Imaginando que essas Tribos encontravam-se caminhando pelo deserto e que muitas coisas úteis para sua viagem eram escassas, que a lei que vigia era a do mais forte, já não se torna tão óbvia assim, mas absolutamente necessária para colocar aquele povo sob um mínimo de disciplina. Mesmo entre as Tribos de Israel, havia discordâncias de interesses que, frequentemente, colocavam umas contra as outras. Esse mandamento tinha, e ainda tem como finalidade, mostrar-nos que não cabe a nenhum de nós tirar a vida de um irmão. Em nossa época esse mandamento é colocado com destaque em nossos códigos penais.


segunda-feira, 29 de junho de 2020





A RELIGIÃO DE UMBANDA E SUA AFIRMAÇÃO

Podemos inferir, de tudo o que já foi dito, que estamos em pleno período de afirmação doutrinária da Umbanda.  Uma fase como essa não pode se restringir a negar conceitos.  Sabemos que na primeira fase, a de expansão, as grandes discussões da Umbanda se prendiam à sua origem (Vedas, Atlantes, Sumérios, etc.) ou da origem do próprio vocábulo (védico, sânscrito, celta etc.); essas buscas tinham o sentido de afirmar a Umbanda não como uma religião brasileira, mas, sim, como uma religião antiga, que voltava até nós, e por esse fato mais confiável. Hoje sabemos que esta discussão já se tornou ociosa, já não tem mais sentido, pois cada vertente de nossa Religião, já determinou em que acreditar. Devemos ressaltar que, mesmo aquelas vertentes que buscam resquícios de nossa Religião em épocas antigas, no passado milenar, hoje já têm como certo que o atual momento se iniciou com o seu anúncio pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas. Assim, o período de afirmação doutrinária iniciou-se a partir do momento em que a evidência, de que era irrefutável que a origem brasileira da Umbanda. Por isso, como dissemos, mesmo aqueles que buscam na antiguidade a origem da Umbanda, já aceitam que a nossa religião realmente teve um renascimento no Brasil.  

A base filosófico-religiosa da Umbanda é, sem nenhuma dúvida, aquela pregada por Cristo, mesmo aqueles que acreditam no seu aparecimento na antiguidade, não podem negar essa afirmação, já que além de ser anunciada em uma mesa kardecista, portanto estudiosa do Evangelho, foi anunciada por um Caboclo que se identificou como um jesuíta em uma encarnação passada. Além disso, o Caboclo das Sete Encruzilhadas afirmou que esse movimento se iniciou no plano astral sob a orientação de Santo Agostinho. Essa fala encontra-se gravada e foi distribuída por Mãe Maria de Omolu, da Casa Branca de Oxalá, a todos que solicitaram, juntamente com muitas outras falas do Chefe – como é chamado o Caboclo na Tenda N. Sra. da Piedade.

Esses ensinamentos de Jesus Cristo, esposados pela Umbanda, ultrapassam vinte séculos como a maior força timoneira da humanidade na caminhada espiritual. Na verdade, antes de Jesus, entre os séculos V e II a.C. vários líderes religiosos essênios já apresentavam as bases daquilo que posteriormente veio a configurar a religião cristã. Dentre eles, figura o então chamado Mestre da Retidão, líder essênio, cujas orientações religiosas já adiantavam quase tudo o que Jesus viria a dizer. 

Se isso é verdade, porque razão Cristo foi quem marcou nosso mundo? Exatamente por sua missão Crística. E esta missão foi tão forte, tão inconteste, que a filosofia pregada por Cristo, do amor entre todos e de nossa filiação direta a Deus, além de marcar uma Era, marcou o calendário e se espalhou por todos os cantos do mundo.  Do extremo oriente ao ocidente, Cristo é hoje reconhecido como aquele que veio trazer a mensagem do Pai. Assim, a Umbanda não deve temer assumir Jesus Cristo como seu maior orientador.  Na verdade, Ele não é propriedade de nenhuma religião. Se buscarmos em alguns pensadores cristãos suas bases filosófico-religiosas veremos o quanto elas são compatíveis com a Umbanda, inclusive no que concerne à definição dada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, ou seja, “A manifestação do Espírito para a caridade”. Ao analisarmos com cuidado esses escritores, religiosos ou laicos, veremos ainda o quanto foi deturpada a mensagem que foi trazida por Jesus, por algumas Igrejas que hoje se apresentam como exclusivas representantes de Cristo. 

A esse argumento, somam-se outros de caráter filosófico e histórico.  O Caboclo das Sete Encruzilhadas sempre afirmou a presença na Umbanda da filosofia cristã; sempre se utilizou do Evangelho como apoio de suas pregações; enquanto o seu médium esteve vivo manteve a Umbanda dentro de seus princípios incruentos. No entanto, tal como todas as religiões que não possuem um líder máximo, a Umbanda esteve sempre sujeita a um processo de corrupção de sua doutrina e de seus rituais por pessoas mal-intencionadas. No entanto, isso não é exclusividade da nossa religião. Vemos isso também em várias religiões como o Kardecismo, o Candomblé e muitas Igrejas Neopentecostais, porque o que realmente acontece é a assunção ao posto de líderes, Sacerdotes, Pais de Terreiro e de Santo, Presidentes, Pastores, etc. de pessoas cujo único interesse é tirar vantagem daqueles que incautamente caem em sua conversa. Neste período de afirmação doutrinária, deveremos nos preocupar com pelo menos com três linhas de pensamento e atuação.

A primeira, é a afirmação dos princípios cristãos da Umbanda; a segunda, é um processo de afirmação do seu rito, depurado de todos atos que, por uma mistura indesejada, vieram descaracterizar a Umbanda; a terceira é a criação, naquelas Casas da verdadeira Umbanda, que ainda não o possuam, de um ritual de formação sacerdotal, visando ordenar sacerdotes que se comprometam com as duas primeiras vertentes. Aquelas Casas que tenham já o seu ritual, deverão mantê-lo e, se possível, aprimorá-lo, no sentido de formar sacerdotes que, além da espiritualidade e da religiosidade, se aperfeiçoem intelectualmente e que se comprometam com essas três linhas de afirmação doutrinária.

No tocante à primeira – afirmação dos princípios cristãos da Umbanda – devemos executar um trabalho de avaliação dos inúmeros livros com base na filosofia cristã para que, após um acurado estudo, assentarmos[1]as bases cristãs da Umbanda. É claro que outras doutrinas religiosas, construtivas, podem ser também aceitas, mas sempre dentro daqueles parâmetros cristãos, ou seja o amor e a caridade. Aproveito para deixar aqui, alguns princípios que deverão ser revistos na Umbanda.  Não se pode aceitar as interpretações que foram feitas do Evangelho de Cristo que conduzem seus ensinamentos a:

- Um Deus vingativo e punitivo;
- Inexistência da comunicação com as almas;
- O carma como punição divina;
- Inexistência da reencarnação.

Além disso, temos alguns princípios, verdadeiros dogmas, para que sejam melhor compreendidos pelos praticantes umbandistas:

- A autodeterminação: existência de “dois momentos” de livre arbítrio, um no preparo da nova encarnação e outro quando já encarnado, onde, no primeiro momento, o ser humano faz opções fundamentais a respeito de sua nova existência na terra e no segundo, quando já encarnado, seguir ou não o caminho previsto;

- Nós, como nossos próprios juízes, após nossa morte física: não devemos colocar na mão de qualquer divindade ou espíritos o nosso julgamento após a morte. Nós mesmos faremos isso. Quando já desencarnados e com a visão de todas as nossas existências, inclusive a que acabamos de deixar, faremos um balanço de tudo que fizemos, daquilo que conseguimos melhorar e de tudo o mais que ainda necessitamos de evoluir.

- A existência de um caminho de evolução para cada ser humano: a compreensão de que nosso espírito é portador de uma centelha divina que vai se iluminando, tal qual um diamante que vai sendo lapidado até se tornar um brilhante;

Esses três princípios, quando perfeitamente compreendidos pelos filhos de Umbanda, servirão de base a programação de suas próximas vidas encarnados.

Se nesses princípios se baseia a nossa programação de encarnações futuras, eles significam também que haverá um aperfeiçoamento permanente do espírito até chegar a um plano de desenvolvimento tal que não necessitará mais reencarnar-se na Terra.

- "Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo" como os mandamentos que definem a Umbanda; estes mandamentos representam a base cristã da Umbanda. Como definiu o Caboclo das Sete Encruzilhadas, a Umbanda é a manifestação dos espíritos para a caridade e somente seguindo esses dois mandamentos, definidos por Cristo como os maiores e mais importantes de todos, é que estaremos cumprindo nossa missão na Umbanda e em nossas vidas. Lembremos uma definição de Chico Xavier, quando lhe perguntaram o que era a caridade. Ele a definiu de modo muito simples: é o amor em ação.

Estas e outras questões devem ser buscadas tanto nos livros já existentes como, se nos for consentido, através de comunicações do Astral. Sabemos o quanto foi deturpada a pregação do Cristo; sabemos também o quanto o poder temporal superou a pregação da doutrina que nos foi trazida por Cristo, quando da formação da Igreja Católica; sabemos quantas “reformas” foram feitas nos Evangelhos em nome do fortalecimento desta mesma Igreja. Sabemos também o quanto o Evangelho segundo o Espiritismo traz no seu bojo a influência da comunicação de Almas que tiveram sua formação dentro do catolicismo. Por isso, pode parecer difícil esse processo de separação daquilo que foi verdadeiramente trazido por Cristo e aquilo que foi inserido em função de interesses da Igreja ou de seus codificadores. No entanto, já existem estudos feitos ao longo desses vinte séculos que permitem, enfim, fazer a separação do joio e do trigo, em grande parte das escrituras cristãs. Existem versões feitas diretamente do aramaico, do grego e do hebraico. Devemos estudar muito, mas, temos certeza de que a Umbanda, que é uma religião que possui muito poucos dogmas, terá a ajuda de seus guias e a sua doutrina aparecerá limpa, transparente, libertadora e, por fim, se afirmará.



[1] Não se trata de uma mera cópia ou da adoção de livros inteiros como representativos da filosofia umbandista, mas, sim, da produção de obras religiosas inspiradas pelo plano espiritual.

terça-feira, 26 de maio de 2020

A IMPORTÂNCIA DO RITUAL RELIGIOSO






A IMPORTÂNCIA DO RITUAL RELIGIOSO

Segunda parte

Devemos lembrar que para os trabalhos – feitiços, demandas – feitos para prejudicar, aqueles que o fazem não precisam ter contato físico com as pessoas a serem prejudicadas. Para desfazê-las, também a magia a ser empregada pela entidade, para ajudar àquele que pede a proteção, deverá também ser forte o suficiente para eliminá-los mesmo à distância, sem contato com quem fez aquilo.

Os rituais religiosos também são importantes para que vejamos que tudo na nossa vida tem uma ligação externa, que muitas vezes não percebemos. Numa sociedade onde as pessoas estão cada vez mais isoladas, onde prevalece o egoísmo, os rituais nos trazem um sentimento de pertencimento, de aconchego, de proximidade com algo que, além de nós, seres humanos, existe e que não sabemos o que é; alguém, alguma energia, que não sabemos quem é nem de onde vem; descobrimos que não temos uma compreensão plena de quem somos, do que é a vida, de onde ela vem e para que serve. Será a vida somente para batalharmos nossas vitórias materiais ou devemos buscar coisas mais sutis como a espiritualidade?

Na Umbanda, os rituais, até pela presença dos Orixás, como forças da natureza, nos mostram que somos parte de algo muito mais importante do que um ego ou mesmo um aglomerado humano. Percebemos, que nossa presença no mundo não nos foi dada para que fôssemos donos da natureza, mas parte dela. Pela presença das Almas, com quem nos comunicamos em nossos rituais, sentimos que somos mais do que a matéria visível e que a nossa parte mais importante é invisível, como o são as Almas que trabalham para o nosso bem na Umbanda. Enfim, começamos a perceber que no nosso dia a dia somos mais do que nossos rituais laicos nos mostram, que o sagrado está sempre presente em nossas vidas, não importando o lugar onde nos encontremos.

A prática dos rituais religiosos, nos abre a possibilidade de perceber que temos capacidade de nos ligarmos ao Alto, ao Universo, à Energia Divina. Estas palavras, Alto, Universo e Energia Divina, estão longe de representar, fielmente, Deus. A palavra teologia em si já traz em si uma certa prepotência do homem já que se a analisarmos, etimologicamente, significa estudo de Deus. Estamos acostumados a conhecer o homem sempre em relação a alguma coisa material ou à natureza. No entanto, Deus está acima de tudo isso. Podemos até falar sobre Ele, mas Ele está acima de qualquer coisa, da natureza e, por isso, não podemos estudá-lo. Deus é onipotente, onisciente, onipresente. Enquanto o homem se encontra em um patamar de finitude, Deus é Infinito. Como pode o finito compreender o infinito? Estamos muito acostumados a usar palavras como finito e infinito, máximo e mínimo, mas não pensamos o que elas representam de verdade. O máximo, por exemplo, o que é? Estamos acostumados a dizer: fiz o máximo para resolver isso ou aquilo; mas eu me esqueço que eu sou finito, imperfeito, então esse máximo é somente uma expressão coloquial. O verdadeiro sentido de máximo é o de plenitude, ou seja, algo ao qual, em nenhuma hipótese se pode acrescentar algo. O infinito, por sua vez, é algo transcendental, pois está fora da compreensão do homem, finito.  Um cardeal, teólogo e filósofo alemão, Nicolau de Cusa[1], ficou famoso pelo que se convencionou chamar de “teologia negativa”[2]. Essa teologia, em contraposição à teologia romana, ia na contramão do misticismo, que coloca o Deus antropomorfizado presente o suficiente para que os humanos falassem com ele. Ela se baseava no fato de que não podemos compreender ou conhecer Deus, pois Ele se encontra muito além da nossa inteligência, ele é incompreensível e supera totalmente a nossa razão.  Somente podemos perceber Deus se o aceitarmos como a causa universal de todas as coisas criadas.

Entretanto, ainda assim, não o conheceremos, mas poderemos nos contatar com a Energia que dele provém: a Energia Divina. Os rituais religiosos nos mostram que, na medida em que os praticamos e neles mergulhamos com a mente e o coração, podemos ser melhores do que somos. A espiritualidade nos modifica e nos infunde novos valores. Quando mergulhamos, a fundo nos nossos rituais religiosos, começamos a perceber o que eles, realmente, nos querem mostrar. Nosso caminho de evolução vai se tornando mais claro e mais fácil de ser trilhado, pois estamos fazendo algo que nos fala ao espírito, estamos seguindo a nossa fé, estamos cultuando a Energia que nos vivifica.




[1]Nicolau de Cusa[1]1401 d.C., Cusa - Alemanha - 1464 d.C., Úmbria - Itália ​
[2]A teologia negativa ou apofática tem o seu nome proveniente dos termos (apofatico – catafático) adotados de Aristóteles em sua lógica, indicando, respectivamente a negação e a afirmação no interior do enunciado do discurso. A teologia apofática é o modo de pensar Deus e falar-lhe através da negação: Deus está colocado além da criação e por isso, nenhuma definição pode ser dada adequadamente sobre a Divindade. www3.unisi.it/ricerca/prog/fil-med.../teologia_negativa.htm


terça-feira, 21 de abril de 2020

A QUARESMA NA UMBANDA





A QUARESMA NA UMBANDA

Nossa religião é cristã. No entanto, devemos separar com clareza o que faz parte dos ensinamentos de Cristo e o que é parte da Igreja Católica. Devemos separar, portanto, os ensinamentos cristãos dos ritos criados por outras religiões e Igrejas cristãs. Se nos perguntarem se Jesus é filho de Deus, diremos que sim, é claro. Todos somos filhos de Deus. A grande diferença entre a humanidade e Jesus é que ele evoluiu a um ponto que é colocado como o Cristo. Cristo significa na sua origem em grego o ungido, que seria aquele que foi escolhido para trazer as palavras de Deus. É o mesmo que Messias.
Como sabemos, todo verdadeiro sábio é um mestre, no sentido lato da palavra. Ele traz para o mundo e, em especial para sua comunidade, ensinamentos que ajudarão na evolução espiritual de dos irmãos que de alguma forma o seguem. Tivemos vários mestres no mundo e a própria Bíblia nos fala deles. Eram os chamados profetas.
Porém, com Jesus foi diferente de todos esses mestres, já que em sua última encarnação foi chamado de “o ungido”, ou seja, mais que um sábio, um ser que traria os ensinamentos que perdurariam no tempo e serviriam para nos conduzir no caminho da evolução, no caminho de Deus, independentemente do nível em que nos encontramos.
As pessoas costumam perguntar o que teria aprendido Jesus nesta encarnação. Uma passagem do Evangelho, o da mulher Cananéia - Mateus 15, 21-28 - que pede, aos gritos, que Jesus cure sua filha, mostra um Jesus arrogante nas suas respostas à mulher, duro e inflexível, dizendo-lhe - "Não é bom tirar o pão dos filhos e dá-los aos cachorrinhos". Os judeus tratavam os cananeus de cachorros. A mulher lhe responde –“Também os cachorrinhos comem das migalhas que caem das mesas dos seus donos".  Diante desta resposta, Jesus entende que tinha vindo no mundo para todos os povos e não somente para os judeus.  Com isso, Jesus muda sua posição, lhe diz que a fé da mulher a havia salvado e ajuda à filha dela. Neste momento Jesus se desgarrou de sua origem, e se tornou universal. O que ele aprendeu aqui? Humildade, já que para ele até aí somente havia um povo escolhido, o seu, o judeu. Em outra passagem ele manda seus apóstolos pregarem, mas recomenda, não entrem nas terras dos pagãos. Sempre que um espírito reencarna alguma coisa ele vai aprender. Não se volta à matéria sem um motivo.
Assim, o homem Jesus reencarnou, para sua última vida na matéria. Atingiu o ápice de seu crescimento espiritual e, por isso, tornou-se um filho especial de Deus. A humanidade toda chegará a este ponto de desenvolvimento espiritual, cada ser humano ao seu tempo.
Voltemos à quaresma. Esse período que hoje é de quarenta dias, já foi de três, de trinta e por fim chegou a quarenta. Por que chegou finalmente aos quarenta dias. O número quarenta tem uma presença muito significativa na Bíblia. O dilúvio decorreu por quarenta dias e quarenta noites; Moisés caminhou quarenta anos pelo deserto com o seu povo; Jesus se refugiou no deserto por quarenta dias, e vários outros eventos ocorreram nesse período. Por isso a Igreja Católica optou por este tempo.
A quaresma é um dos ritos que mais preocupam alguns chefes de Terreiro, no tocante a como se comportar. Para entender o que seria a quaresma para nós, devemos entender primeiro a chamada paixão de Cristo. Enquanto para os católicos este período é de sofrimento para Jesus, culminando em sua morte dolorosa, para nós, espiritualistas, ele é na verdade o auge do desenvolvimento espiritual do homem Jesus. Assim, sua morte na cruz, já planejada para esta sua última vida na carne, longe de ser motivo de tristeza, é motivo de contentamento. Aquele Espírito atingiu o mais alto nível de evolução possível para um ser humano. Aquele Espírito ficou face a face com a inesgotável fonte de energia divina.
Assim, para nós, umbandistas, o significado da quaresma não pode ser o mesmo, por dois motivos: o primeiro, é o fato de não ser um ritual nosso; o segundo é pela forma como encaramos a crucificação de Jesus.  Os terreiros não só podem, como devem abrir suas portas para fazer a caridade. Nada existe, do ponto de vista espiritual que diferencie esse período do resto do ano.
Mais ainda, se as vibrações de dor, pena e culpa que tomam conta de uma parcela da população facilitarem a presença de espíritos de baixa estatura espiritual, que seja, nossas entidades estão ali para trabalhar e ajudar não só nossos fiéis e filhos umbandistas, como também para aproveitar a oportunidade para resgatar alguns desses espírito e conduzi-los para a luz.