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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

HISTÓRIA DA UMBANDA 3




I.                                                                                              HISTÓRIA DA UMBANDA 3


A Companhia de Jesus

A história do jesuíta Gabriel Malagrida se mescla com a história de Portugal e da sua ordem religiosa, a Companhia de Jesus, também conhecida como a ordem dos padres jesuítas. Por isso mesmo devemos ter pelo menos uma ideia do que foi a Ordem dos Jesuítas e de sua atuação no Brasil.

Foi fundada no século XVI, em 1534, em Paris, por Inácio de Loyola, um nobre basco que, após ser ferido em uma batalha contra os franceses, dedicou-se à leitura de livros de teologia católica enquanto se recuperava. Durante esse período foi intuído para abandonar os bens materiais e se dedicar à busca espiritual, esforçando-se para desapegar da matéria. Depois, com seis outros estudantes da Universidade de Paris, fundou essa ordem que foi reconhecida pelo Papa Paulo III, em 1540. Foi fundada com a finalidade de trabalhar em benefício dos doentes e em missões para levar a fé em Deus e em Cristo. Seu trabalho nas missões, fez com que essa ordem se tornasse, ao longo dos séculos seguintes, um pilar da educação, em especial nas colônias recém agregadas a Portugal e Espanha, especialmente no Brasil.

Com o primeiro governador geral do Brasil, Tomé de Souza, em 1549 chegaram os primeiros jesuítas, destacando-se posteriormente, entre eles, Manoel da Nóbrega e José de Anchieta. Vinham com a finalidade de catequizar os indígenas. Naquela época havia uma aliança tácita entre a Igreja e o estado português. Um acordo instituído entre o Vaticano e o governo reservava ao Rei de Portugal o controle exclusivo da organização e financiamento de todas as atividades religiosas nos domínios e nas terras descobertas por portugueses. Através desse sistema, que se chamava Padroado, permitia ao Rei construir igrejas, designar padres e bispos, inclusive o Cardeal de Lisboa e após essa designação estes eram aprovados pelo Papa. Com isso, Roma também dava total independência aos padres e às ordens que trabalhavam como missionários nas colônias de Portugal. Essas missões, no Brasil, sob a direção dos Jesuítas, eram administradas sem nenhuma interferência do governo português. Durante mais de dois séculos essa aliança entre o governo português e a Igreja funcionou perfeitamente, já que os interesses de ambos estavam sendo atendidos, pois ao lado da catequização dos indígenas, o que os tornava mais acessíveis aos portugueses, possibilitando aos colonos e exploradores portugueses extraírem da nova colônia muitas riquezas, com menor risco. Por outro lado, à Igreja, além da catequização, havia o interesse desse trabalho porque as ordens nele envolvidas tornavam-se extremamente ricas. Com isso, para os jesuítas também o acordo era vantajoso pois além da doutrinação dos indígenas estes, reunidos em missões sob as ordens da Companhia de Jesus, produziam também riquezas para aquela Companhia e com mão de obra a custo zero. Isto a tornou a mais rica e poderosa Ordem, não só no Brasil como dentro do Vaticano.

Em 1759, o Marques de Pombal expulsa a Companhia de Jesus de todos as colônias portuguesas e da metrópole. Para que tenhamos ideia da importância e do poder conseguido pela Ordem no Brasil, reproduzimos aqui o que seriam as propriedades dela, segundo vários historiadores, nas terras onde hoje se situam o Pará e o Maranhão. Neste último estado existiam mais de 150 missionários jesuítas, duas escolas e um seminário.  A Ordem possuía mais de cem mil cabeças de gado, fazendas de açúcar e outros produtos inclusive aqueles originários da extração vegetal. Na área onde hoje se situa o estado do Piauí, eram proprietários de patrimônio idêntico. Tudo isso era tocado com mão de obra gratuita que eram os indígenas catequizados. Essa também foi uma das razões pelas quais não interessava aos jesuítas a interferência do governo português em suas colônias.

Várias medidas foram tomadas pela Coroa Portuguesa para o enfraquecimento do poder dos jesuítas na colônia. Entre elas podemos citar a libertação dos indígenas – inclusive permitindo o casamento de homens portugueses com mulheres indígenas – a abolição do acordo do governo português com o Vaticano, que dava a este o poder temporal sobre as aldeias administradas pelos seus missionários, atingindo diretamente os jesuítas e ao seu patrimônio no Brasil. Outras medidas também foram tomadas, todas elas eliminando o poder da Igreja no Brasil.

A Igreja Católica, que tinha muito poder junto ao Império português, graças, principalmente, a força alguns de seus seguidores junto ao Rei e à Rainha de Portugal, foi afastada do poder com a ascensão ao trono de D. José I, e o aumento da força política do Marquês de Pombal. Os jesuítas caíram em desgraça no império português, já que não aceitavam a ingerência da Coroa em suas atividades e acabaram sendo expulsos de todas as colônias portuguesas.

O grande pomo da discórdia entre Pombal e os jesuítas era que este, na tentativa de modernizar o Estado, além de ter controle sobre a ação dos jesuítas, queria libertar os indígenas, o que prejudicava à Ordem que, como vimos tinha grandes produções de carne, leite e açúcar sem pagamento da mão de obra, já que esta era de indígenas recolhidos às missões, sob a capa de dar-lhes proteção.

II.           O Jesuíta Gabriel Malagrida

O que foi dito acima, interessa diretamente à história da Umbanda, em razão de seu anunciador, Caboclo das Sete Encruzilhadas, ter revelado que tivera uma encarnação anterior como o jesuíta, Gabriel Malagrida, justamente no período de rompimento entre a Coroa e a Ordem. Tanto que, Malagrida foi condenado à morte em 1761, em um julgamento que foi classificado, por Voltaire, “como um excesso de absurdo agravado com um excesso de horror”.

Gabriel Malagrida nascido em 1689, em Menaggio, uma pequena comuna italiana da Lombardia, na província de Como, filho do médico Giácomo Malagrida, começou seus estudos aos 12 anos em um colégio religioso, na capital Como. Tendo resolvido dedicar-se à vida religiosa, após concluir seus estudos, foi para Milão dar continuidade a eles com a finalidade de, posteriormente, ser admitido como noviço na Companhia de Jesus. Isto realmente se deu em 1711.

Assim, após completar seus estudos e ser ordenado, foi designado como missionário no Brasil e encaminhado para Belém, no estado do Pará, com a finalidade de aprender as línguas indígenas. Seu primeiro contato foi com a tribo dos Caicazes, posteriormente catequizada por ele. Em seguida, foi mandado para uma missão de evangelização dos indígenas Barbados, que já haviam perpetrado dois massacres, anteriormente, contra jesuítas e, também, contra indígenas já catequizados.

Também essa missão, de Malagrida, terminou em um massacre onde morreram vinte Caicazes, dos já catequizados, e que faziam parte da sua missão. Gabriel Malagrida, ferido gravemente, foi colocado em uma canoa e abandonado, à deriva, no Rio Itapecuru Mirim. Foi salvo por alguns Caicazes que o encontraram. Posteriormente, já recuperado dirigiu-se para o sul, passando pela Capitania do Piauí, chegando à Bahia, fazendo sua pregação onde chegava. De Salvador, foi a Pernambuco, Paraíba e em 1749, volta ao Maranhão e ao Pará.

Após essas missões, voltou a Portugal com o objetivo de pedir ao Rei que legalizasse as missões e colégios que havia fundado. Chegando em Lisboa, em 1750, assistiu ao Rei D. João V, por ocasião de sua morte. Voltou ao Brasil, em 1751, dirigindo-se ao Maranhão, onde permaneceu por cerca de três anos. Foi chamado por D. Mariana, rainha viúva do rei João V, com a finalidade de ser seu confessor.

Naquela época, ocorriam em Portugal as chamadas reformas pombalinas visando a modernização de Portugal. O homem forte do governo português, o Marquês de Pombal, não aceitava o padroado e com sua pretensão de renovar o estado, a exemplo do que já havia ocorrido na Inglaterra e em outros países da Europa, considerava as ordens missionárias, em especial os jesuítas, obstáculos aos seus objetivos. Para agravar ainda mais essa discordância, pois como era ele quem decidia tudo na corte e no governo, não gostou da influência que Malagrida começou a ter junto à rainha, temendo que através dela os jesuítas pudessem frustrar seus planos.

Em 1755, Lisboa é destruída por um terremoto e Malagrida, então confessor da rainha, imputou o cataclismo aos desígnios de Deus, culpando os habitantes de Lisboa, em geral, e à corte, em especial, que, por seus costumes dissolutos, teriam levado a ocorrência de tal castigo. Sobre essa catástrofe, redigiu um pequeno livro, do qual ofereceu alguns exemplares a D. José I e ao Marquês de Pombal, sobre a moral, denominado “Juízo da Verdadeira Causa do Terremoto” reafirmando sua opinião de que a causa teria sido a falta de moral e os costumes licenciosos da elite portuguesa. Pombal, no entanto, não gostou das teses por ele expostas, já que as tomou como questionamentos à sua autoridade e às decisões do Governo e o desterrou para Setúbal. Ali entrou em contato com a família Távora, que era de oposição a Pombal.

Logo em seguida, o ministro português acusou os jesuítas de incitar revoltas contra ele. Como era ele quem, de fato, governava Portugal, mandou que se extinguissem as missões dos jesuítas no Brasil, expulsar seus membros, fechar seus colégios e confiscar suas propriedades. Em 1758, Pombal acusou à família Távora e ao jesuíta Malagrida de serem os mandantes de um suposto atentado contra o Rei D. José, mandando matar praticamente toda a família Távora e ordenando a prisão de Malagrida.

Três anos depois de condenado à prisão, aos 72 anos de idade, em função de seus sofrimentos, teria perdido sua sanidade mental e, defendendo ainda com insistência suas crenças, alegava que anjos falavam com ele, dentro de sua mente. Publicou vários textos com base nessas vozes e, por eles, foi acusado de herege e condenado a morrer pelo garrote e depois na fogueira, o que aconteceu em setembro de 1761.