Total de visualizações de página

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

HISTÓRIA DA UMBANDA 4





                             HISTÓRIA DA UMBANDA  4                  

                       A expansão da Umbanda ao longo do Brasil

Após a criação das sete primeiras tendas iniciou-se em todo território nacional a criação de tendas. Foram implantados Terreiros nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, e Pará. Em 1926 chega ao Rio Grande do Sul, interior, e em 1932 a Porto Alegre.

No Rio de Janeiro, foram criadas, no espaço de treze anos, sem contar as sete Tendas mandadas criar pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, doze Tendas, entre elas, como exemplo, a Tenda Espírita Fé e Humildade, a Cabana de Pai Joaquim de Luanda, Centro Espírita Caminheiros da Verdade e outras.

Já na década de 1950, no Pará, foi criada a Tenda Mirim Santo Expedito, por Joaquim Bentes Monteiro e sua esposa, que se transferiram para aquele estado com esta finalidade. Esta Tenda é originária da Tenda Mirim, cuja fundação veremos abaixo.

Em Minas Gerais já conseguimos identificar como originários do Caboclo das Sete Encruzilhadas a Tenda do Silêncio, fundada pelo Dr. Valadão, e a Tenda Umbanda Buscando Luz, fundada pelo General Berzélius e sua esposa, D. Celeste, preparada para sua missão pela entidade Pai João, originário da Tenda N. Sra. da Piedade. Dona Celeste era o aparelho da guia chefe da casa, Vó Quitéria. A Tenda do Silêncio, comandada pelo Dr. Valadão, se aproximou, posteriormente, da linha ritualística de Umbanda proposta por W. W. da Matta e Silva.

I.                                                                          O advento do Caboclo Mirim

Em 1924 no Rio de Janeiro, manifestou-se em um jovem médium Benjamim Figueiredo uma Entidade identificada como Caboclo Mirim, que vinha com a finalidade de criar um núcleo de crescimento para a Umbanda. Segundo palavras do médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas, Benjamim foi desenvolvido por uma das entidades que atuavam através de seu aparelho. No entanto, não se sabe se pelo próprio Caboclo ou pelo Orixá Malê. Somente sabemos que foi na praia e que o jovem Benjamim foi carregado nos ombros pela entidade que incorporava em Zélio, por uma grande distância na praia e depois jogado no mar de onde saiu incorporado. Para dar início à Tenda, ou à Seara do Caboclo Mirim, como era chamada pelo seu médium, toda a sua família foi chamada a participar.  Eram ao todo 12 pessoas que deram início ao que foi chamada a Seara de Mirim, conforme foi dito acima.  Após 18 anos, em l942, foi fundada a Tenda Mirim, à rua Sotero dos Reis, 101, Praça da Bandeira; mudou-se, posteriormente, para a rua São Pedro e depois para a rua Ceará, hoje Avenida Marechal Rondon, 597.

A organização da Tenda Mirim, em relação à posição hierárquica e mediúnica, era toda baseada em nomes indígenas. Abaixo, vemos como se forma a pirâmide de mando nessa Tenda.

Bojá-mirim, médiuns de primeiro grau, iniciantes, em desenvolvimento.
Bojá, médiuns de segundo grau, encarregados do descarrego e pela doação de fluídos aos espíritos necessitados que recebem.
Bojá-guaçu, médiuns de terceiro grau, médiuns passistas.
Abaré-mirim, médiuns de quarto grau, subchefes, considerados firmes nos passes e cuidam do Terreiro orientando os médiuns de graus anteriores.
Abaré, médiuns de quinto grau, orientador dos graus anteriores sobre passes e já iniciando como médiuns para consultas espirituais.
Abaré-guaçu, médiuns de sexto grau, subcomandante, chefe de Terreiro, em preparo para comandar sessões.
Morubixaba, médium de sétimo grau, comandante chefe de Terreiro. Quando chegam a esse nível esses médiuns já podem “espalhar a caridade” como orientava o Caboclo Mirim[1].

Da Tenda Mirim saíram vários médiuns que se responsabilizaram pela criação de Tendas de Umbanda ao longo de todo território nacional. A primeira casa dela descendente foi criada, em 30/06/51, como filial, em Queimados, Nova Iguaçu, à rua Alegre, s/n.  Depois desta, novas casas foram abertas em Austin, Realengo, Colégio, Jacarepaguá, Itaboraí e Petrópolis. Fora do Rio de Janeiro, a primeira casa aberta foi a de Assai, no Paraná. 

Até l970, já tinham sido abertas 32 casas. A vida de Benjamim Gonçalves foi toda dedicada à Umbanda. Além do Caboclo Mirim ele recebia também o Preto Velho Pai Roberto.

Foi um dos maiores defensores da Umbanda, ao lado de outros como João de Freitas, Cícero Bernardino, Jerônimo de Souza, Jerônimo Vanzelloti, Omolubá, Matta e Silva, Lilia Ribeiro, Átila Nunes, Bambina Bucci e outros; além destes foram também batalhadores de primeira hora em favor da Umbanda, aqueles que foram os fundadores das sete Tendas mandadas criar pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas. Esses defensores da Umbanda, sob a liderança de Zélio Fernandino de Moraes, foram os primeiros chefes daquelas Tendas: Leal de Souza, Durval Braz, João Salgado, Gabriela Dionísio Soares, José Meirelles Alves Moreira, Corina da Silva, Paulo Lavois, João Severino Ramos, José Álvares Pessoa.

II.                                                                                        A organização inicial da Umbanda

A União Espiritista de Umbanda do Brasil foi fundada em 1939 sob a inspiração e orientação direta Caboclo das Sete Encruzilhadas. Ela foi fundada com o nome de Federação Espírita de Umbanda e seu objetivo era unir os diversos templos de Umbanda.

O Brasil vivia a época do Estado Novo e a Federação serviria como interlocutora entre os diversos centros filiados, o Estado e a sociedade. Os movimentos umbandista e candomblecista tinham sido vítimas de uma lei datada de 1934. Nesse momento o Brasil se encontrava sob a ditadura de Getúlio Vargas, a caminho do  então chamado Estado Novo, a exemplo do que ocorria em Portugal, cujas bases filosóficas e políticas se baseavam no integralismo – nacional socialismo[2]ou nazismo com vestes nacionais. Aproveitando-se de artigo existente no Código Penal de 1890, as altas esferas políticas, impuseram que, todas organizações consideradas contrárias à Igreja Católica, fossem religiosas ou não, passariam a ser jurisdicionadas pelo Departamento de Tóxicos e Mistificações da Polícia do Rio de Janeiro. Assim, maçons, kardecistas, umbandistas e praticantes de religiões afro-brasileiras, estavam incluídos nesse caso.

Para que tenhamos uma medida do poder e o prestigio que eram usufruídos pela Igreja Católica, durante o Brasil Colônia, o Império, e a Primeira e Segunda Repúblicas, basta que verifiquemos que todas as tentativas para implantar outras religiões no Rio de Janeiro feitas, pelas mais diversas confissões religiosas, foram de alguma forma frustradas pela ação dessa Igreja. As Igrejas Reformadas chegavam a iniciar seus cultos, mas não conseguiam se firmar. Os documentos necessários nunca eram conseguidos; as suas reuniões eram proibidas de serem abertas ao público, portanto seus cultos somente podiam ser feitos em casas dos seguidores ou dos líderes das Igrejas.

Um breve resumo histórico desta situação nos mostra que:
·        em 1557 chega ao Rio de Janeiro a Igreja Reformada Francesa, calvinista, expulsa com os soldados franceses em 1567. Posteriormente, em 1630, com a invasão dos holandeses no nordeste do Brasil, chegou a Igreja Reformada Holandesa que sobreviveu até 1654, quando os holandeses foram expulsos;

·        em 1822, foi inaugurada a primeira Capela Anglicana no Rio de Janeiro e somente em 1855, foi fundada a primeira Igreja Protestante, no Rio de Janeiro, e que acabou constituindo primeiro trabalho protestante permanente em terras brasileiras. A partir daí começaram a chegar outras confissões religiosas, não católicas, como os Luteranos, os Presbiterianos, Metodistas, etc.;


·        somente em 07/01/1890, através do Decreto nº 119-A, de Ruy Barbosa, o Brasil tornou-se um Estado laico. Até a promulgação desse decreto, o povo tinha a liberdade para ter qualquer crença religiosa, mas não podia celebrar os seus cultos, a não ser nas casas, que não podiam ter nenhuma aparência de Igreja, de quem professava aquele culto.

Fechado esse parêntese que fizemos, para mostrar a força da Igreja Católica em nossa história religiosa, podemos, agora, dar sequência à organização da Umbanda no Brasil. A partir das informações acima, podemos ver a importância desse primeiro órgão aglutinador de umbandistas, organizado por ordem do Caboclo das Sete Encruzilhadas, a Federação Espírita de Umbanda do Brasil, posteriormente denominada União Espiritualista de Umbanda do Brasil e por fim União Espiritista de Umbanda do Brasil[3]. Essa instituição, como já dissemos, organizada a pedido do Caboclo das Sete Encruzilhadas, teve como primeira grande ação, ajudar a organizar o Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, realizado no Rio de Janeiro, em outubro de 1941.

Teve, também, papel preponderante, em 1944, na organização, edição e elaboração do livro “O Culto de Umbanda em Face da Lei”, entregue ao então presidente Getúlio Vargas, no qual eram apresentados os anseios e direitos da comunidade religiosa Umbandista, perante a Constituição e a sociedade brasileira. A partir da apresentação desse documento a Umbanda foi descriminalizada no Brasil.

Essa Federação também foi responsável pela criação do primeiro periódico sobre o assunto, o Jornal de Umbanda, em 1947.  A União Espiritista de Umbanda do Brasil tem hoje a sua sede localizada na rua Conselheiro Agostinho, 52, no bairro de Todos os Santos, na cidade do Rio de Janeiro e conta, atualmente, com diversos terreiros associados e realiza algumas festas anuais dedicadas à Umbanda[4].

Em  05 de outubro de 1952, ocorreu no Rio de Janeiro a fundação do Primado de Umbanda, como uma Organização Federativa Nacional de caráter religioso e iniciático, sem fins lucrativos, tendo por finalidade estimular o estudo da religião de Umbanda e a difusão e defesa dos seus reais ensinamentos, dar formação sacerdotal e iniciática aos Comandantes Chefes de Terreiro das Instituições Federadas e Simpatizantes do Primado de Umbanda, bem como, divulgar estudos e pesquisas atinentes à Tradição Umbandista. O Primado de Umbanda foi ideado pelo Caboclo Mirim e posto em prática pelo seu aparelho o médium  Sr. Benjamim Gonçalves Figueiredo, um dos mais importantes propagadores e defensores da Umbanda no Brasil, que introduziu pela primeira vez a Escola de Formação Iniciática do 1º ao 7º grau, usando a terminologia da língua “Nheêngatú” da nossa Raça Raiz - a Raça Tupi - para identificar os respectivos graus de evolução espiritual, visando, segundo seus objetivos, resgatar através da Escola do Primado de Umbanda os fundamentos esotéricos da Grande Lei de Umbanda[5].




[1]Maiores informações no site www.tendaespiritamirim.com.br
[2]O início da criação do partido Nacional-Socialista Alemão no Brasil tem início mesmo antes da ascensão do NSDAP na Alemanha com Adolf Hitler.
[3] Essa União teria sido formada com o nome União Espiritista de Umbanda de Jesus, mas não encontramos maiores informações sobre esse fato.
[4] Até seu falecimento, em 2018, seu presidente, foi o advogado Pedro Miranda, também Presidente da Tenda de São Jorge, última remanescente das sete primeiras tendas criadas por ordem do Caboclo das Sete Encruzilhadas.
[5]Informações contidas no site http://tucyacomani.webnode.com.br/primado-de-umbanda/


segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

HISTÓRIA DA UMBANDA 3




I.                                                                                              HISTÓRIA DA UMBANDA 3


A Companhia de Jesus

A história do jesuíta Gabriel Malagrida se mescla com a história de Portugal e da sua ordem religiosa, a Companhia de Jesus, também conhecida como a ordem dos padres jesuítas. Por isso mesmo devemos ter pelo menos uma ideia do que foi a Ordem dos Jesuítas e de sua atuação no Brasil.

Foi fundada no século XVI, em 1534, em Paris, por Inácio de Loyola, um nobre basco que, após ser ferido em uma batalha contra os franceses, dedicou-se à leitura de livros de teologia católica enquanto se recuperava. Durante esse período foi intuído para abandonar os bens materiais e se dedicar à busca espiritual, esforçando-se para desapegar da matéria. Depois, com seis outros estudantes da Universidade de Paris, fundou essa ordem que foi reconhecida pelo Papa Paulo III, em 1540. Foi fundada com a finalidade de trabalhar em benefício dos doentes e em missões para levar a fé em Deus e em Cristo. Seu trabalho nas missões, fez com que essa ordem se tornasse, ao longo dos séculos seguintes, um pilar da educação, em especial nas colônias recém agregadas a Portugal e Espanha, especialmente no Brasil.

Com o primeiro governador geral do Brasil, Tomé de Souza, em 1549 chegaram os primeiros jesuítas, destacando-se posteriormente, entre eles, Manoel da Nóbrega e José de Anchieta. Vinham com a finalidade de catequizar os indígenas. Naquela época havia uma aliança tácita entre a Igreja e o estado português. Um acordo instituído entre o Vaticano e o governo reservava ao Rei de Portugal o controle exclusivo da organização e financiamento de todas as atividades religiosas nos domínios e nas terras descobertas por portugueses. Através desse sistema, que se chamava Padroado, permitia ao Rei construir igrejas, designar padres e bispos, inclusive o Cardeal de Lisboa e após essa designação estes eram aprovados pelo Papa. Com isso, Roma também dava total independência aos padres e às ordens que trabalhavam como missionários nas colônias de Portugal. Essas missões, no Brasil, sob a direção dos Jesuítas, eram administradas sem nenhuma interferência do governo português. Durante mais de dois séculos essa aliança entre o governo português e a Igreja funcionou perfeitamente, já que os interesses de ambos estavam sendo atendidos, pois ao lado da catequização dos indígenas, o que os tornava mais acessíveis aos portugueses, possibilitando aos colonos e exploradores portugueses extraírem da nova colônia muitas riquezas, com menor risco. Por outro lado, à Igreja, além da catequização, havia o interesse desse trabalho porque as ordens nele envolvidas tornavam-se extremamente ricas. Com isso, para os jesuítas também o acordo era vantajoso pois além da doutrinação dos indígenas estes, reunidos em missões sob as ordens da Companhia de Jesus, produziam também riquezas para aquela Companhia e com mão de obra a custo zero. Isto a tornou a mais rica e poderosa Ordem, não só no Brasil como dentro do Vaticano.

Em 1759, o Marques de Pombal expulsa a Companhia de Jesus de todos as colônias portuguesas e da metrópole. Para que tenhamos ideia da importância e do poder conseguido pela Ordem no Brasil, reproduzimos aqui o que seriam as propriedades dela, segundo vários historiadores, nas terras onde hoje se situam o Pará e o Maranhão. Neste último estado existiam mais de 150 missionários jesuítas, duas escolas e um seminário.  A Ordem possuía mais de cem mil cabeças de gado, fazendas de açúcar e outros produtos inclusive aqueles originários da extração vegetal. Na área onde hoje se situa o estado do Piauí, eram proprietários de patrimônio idêntico. Tudo isso era tocado com mão de obra gratuita que eram os indígenas catequizados. Essa também foi uma das razões pelas quais não interessava aos jesuítas a interferência do governo português em suas colônias.

Várias medidas foram tomadas pela Coroa Portuguesa para o enfraquecimento do poder dos jesuítas na colônia. Entre elas podemos citar a libertação dos indígenas – inclusive permitindo o casamento de homens portugueses com mulheres indígenas – a abolição do acordo do governo português com o Vaticano, que dava a este o poder temporal sobre as aldeias administradas pelos seus missionários, atingindo diretamente os jesuítas e ao seu patrimônio no Brasil. Outras medidas também foram tomadas, todas elas eliminando o poder da Igreja no Brasil.

A Igreja Católica, que tinha muito poder junto ao Império português, graças, principalmente, a força alguns de seus seguidores junto ao Rei e à Rainha de Portugal, foi afastada do poder com a ascensão ao trono de D. José I, e o aumento da força política do Marquês de Pombal. Os jesuítas caíram em desgraça no império português, já que não aceitavam a ingerência da Coroa em suas atividades e acabaram sendo expulsos de todas as colônias portuguesas.

O grande pomo da discórdia entre Pombal e os jesuítas era que este, na tentativa de modernizar o Estado, além de ter controle sobre a ação dos jesuítas, queria libertar os indígenas, o que prejudicava à Ordem que, como vimos tinha grandes produções de carne, leite e açúcar sem pagamento da mão de obra, já que esta era de indígenas recolhidos às missões, sob a capa de dar-lhes proteção.

II.           O Jesuíta Gabriel Malagrida

O que foi dito acima, interessa diretamente à história da Umbanda, em razão de seu anunciador, Caboclo das Sete Encruzilhadas, ter revelado que tivera uma encarnação anterior como o jesuíta, Gabriel Malagrida, justamente no período de rompimento entre a Coroa e a Ordem. Tanto que, Malagrida foi condenado à morte em 1761, em um julgamento que foi classificado, por Voltaire, “como um excesso de absurdo agravado com um excesso de horror”.

Gabriel Malagrida nascido em 1689, em Menaggio, uma pequena comuna italiana da Lombardia, na província de Como, filho do médico Giácomo Malagrida, começou seus estudos aos 12 anos em um colégio religioso, na capital Como. Tendo resolvido dedicar-se à vida religiosa, após concluir seus estudos, foi para Milão dar continuidade a eles com a finalidade de, posteriormente, ser admitido como noviço na Companhia de Jesus. Isto realmente se deu em 1711.

Assim, após completar seus estudos e ser ordenado, foi designado como missionário no Brasil e encaminhado para Belém, no estado do Pará, com a finalidade de aprender as línguas indígenas. Seu primeiro contato foi com a tribo dos Caicazes, posteriormente catequizada por ele. Em seguida, foi mandado para uma missão de evangelização dos indígenas Barbados, que já haviam perpetrado dois massacres, anteriormente, contra jesuítas e, também, contra indígenas já catequizados.

Também essa missão, de Malagrida, terminou em um massacre onde morreram vinte Caicazes, dos já catequizados, e que faziam parte da sua missão. Gabriel Malagrida, ferido gravemente, foi colocado em uma canoa e abandonado, à deriva, no Rio Itapecuru Mirim. Foi salvo por alguns Caicazes que o encontraram. Posteriormente, já recuperado dirigiu-se para o sul, passando pela Capitania do Piauí, chegando à Bahia, fazendo sua pregação onde chegava. De Salvador, foi a Pernambuco, Paraíba e em 1749, volta ao Maranhão e ao Pará.

Após essas missões, voltou a Portugal com o objetivo de pedir ao Rei que legalizasse as missões e colégios que havia fundado. Chegando em Lisboa, em 1750, assistiu ao Rei D. João V, por ocasião de sua morte. Voltou ao Brasil, em 1751, dirigindo-se ao Maranhão, onde permaneceu por cerca de três anos. Foi chamado por D. Mariana, rainha viúva do rei João V, com a finalidade de ser seu confessor.

Naquela época, ocorriam em Portugal as chamadas reformas pombalinas visando a modernização de Portugal. O homem forte do governo português, o Marquês de Pombal, não aceitava o padroado e com sua pretensão de renovar o estado, a exemplo do que já havia ocorrido na Inglaterra e em outros países da Europa, considerava as ordens missionárias, em especial os jesuítas, obstáculos aos seus objetivos. Para agravar ainda mais essa discordância, pois como era ele quem decidia tudo na corte e no governo, não gostou da influência que Malagrida começou a ter junto à rainha, temendo que através dela os jesuítas pudessem frustrar seus planos.

Em 1755, Lisboa é destruída por um terremoto e Malagrida, então confessor da rainha, imputou o cataclismo aos desígnios de Deus, culpando os habitantes de Lisboa, em geral, e à corte, em especial, que, por seus costumes dissolutos, teriam levado a ocorrência de tal castigo. Sobre essa catástrofe, redigiu um pequeno livro, do qual ofereceu alguns exemplares a D. José I e ao Marquês de Pombal, sobre a moral, denominado “Juízo da Verdadeira Causa do Terremoto” reafirmando sua opinião de que a causa teria sido a falta de moral e os costumes licenciosos da elite portuguesa. Pombal, no entanto, não gostou das teses por ele expostas, já que as tomou como questionamentos à sua autoridade e às decisões do Governo e o desterrou para Setúbal. Ali entrou em contato com a família Távora, que era de oposição a Pombal.

Logo em seguida, o ministro português acusou os jesuítas de incitar revoltas contra ele. Como era ele quem, de fato, governava Portugal, mandou que se extinguissem as missões dos jesuítas no Brasil, expulsar seus membros, fechar seus colégios e confiscar suas propriedades. Em 1758, Pombal acusou à família Távora e ao jesuíta Malagrida de serem os mandantes de um suposto atentado contra o Rei D. José, mandando matar praticamente toda a família Távora e ordenando a prisão de Malagrida.

Três anos depois de condenado à prisão, aos 72 anos de idade, em função de seus sofrimentos, teria perdido sua sanidade mental e, defendendo ainda com insistência suas crenças, alegava que anjos falavam com ele, dentro de sua mente. Publicou vários textos com base nessas vozes e, por eles, foi acusado de herege e condenado a morrer pelo garrote e depois na fogueira, o que aconteceu em setembro de 1761.


segunda-feira, 25 de novembro de 2019

HISTÓRIA DA UMBANDA 2





HISTÓRIA DA UMBANDA 2

No dia seguinte, na casa da família Moraes, na rua Floriano Peixoto, número 30, ao se aproximar a hora marcada, 20:00 h, lá já estavam reunidos os membros da Federação Espírita, que queriam comprovar a veracidade do que fora declarado na véspera. Estavam presentes também parentes mais próximos, amigos, e vizinhos da família de Zélio e, do lado de fora, uma multidão de desconhecidos que ninguém sabia como tinha chegado até ali.

Às 20:00 h, conforme havia dito, manifestou-se o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Declarou que naquele momento se iniciava um novo culto. Nele os espíritos de velhos africanos que haviam servido como escravos e que agora se encontravam desencarnados iriam ter a oportunidade de desenvolver os trabalhos necessários em benefício dos encarnados. Também, os indígenas brasileiros fariam parte dessa nova religião, pois igualmente queriam ajudar aos encarnados, qualquer que fosse a cor, a raça, o credo ou a condição social. Entretanto, até aquele momento, essas Almas não encontravam campo de atuação nos rituais remanescentes da cultura negra ou indígena, que haviam sido corrompidas e estavam direcionados, em sua totalidade, para os trabalhos de feitiçaria. Daí a necessidade dessa nova Religião.

O Caboclo estabeleceu as normas em que se processaria o culto. Sessões, assim seriam chamados os períodos de trabalho espiritual, diárias das 20:00 às 22:00 h; os participantes estariam uniformizados de branco e o atendimento seria gratuito. Deu, também, o nome do Movimento Religioso que se iniciava – UMBANDA – que teria como definição a “Manifestação do Espírito para a Caridade”.

A primeira Tenda de Umbanda, para os trabalhos espirituais, que ora se fundava, recebeu o nome de Nossa Senhora da Piedade. O Caboclo das Sete Encruzilhadas explicou que esse era o nome porque assim como Maria acolheu o filho nos braços, também seriam acolhidos como filhos todos os que necessitassem de ajuda ou de conforto.

Tão logo o Caboclo das Sete Encruzilhadas deixou seu aparelho, chegou uma nova entidade, que não quis se sentar na mesa e aceitou um toco que lhe foi oferecido. Perguntado sobre o que ele precisava pediu apenas um cachimbo e o fumo. Era Pai Antônio, o primeiro Preto Velho a chegar na Umbanda. Assim como o Caboclo definiu algumas normas básicas sobre como deveria ser a Umbanda, Pai Antônio ditou regras claras e rígidas para a nova religião.

·        Não haveria sacrifícios;
·        não haveria cobrança pelos atendimentos;
·        não se usaria os atabaques;
·        todos deveriam vestir branco,
·        todos deveriam, e estar com os pés no chão.

Esses princípios todos tinham uma razão concreta.

Não haveria sacrifícios, pois, a partir do sacrifício de Jesus todos os rituais cristãos deveriam ser incruentos ou seja, sem sangue. Além disso, a vibração proveniente do sacrifício de animais e do sangue deles retirado, atrairia entidades de baixa evolução, incompatíveis com a proposta da nova religião de trabalhar pela caridade.

Não haveria cobrança por que o trabalho seria das Entidades e não do médium que é apenas um aparelho para a sua manifestação, e, também, por que o trabalho seria feito para caridade pura e simples.

Devemos lembrar que após vinte anos da libertação dos escravos, os negros libertos que viviam nas cidades, sem nenhum meio de subsistência, e sobreviviam, desde então, fazendo trabalhos de adivinhação, previsão do futuro, leitura de mãos, curas, feitiços, etc. Daí a necessidade de deixar claro essa questão da cobrança.

Todos os médiuns e cambonos que estivessem dentro do Terreiro usariam o branco, assim como todos estariam com os pés no chão, para exprimir a igualdade dos irmãos que iriam trabalhar no novo culto simbolizando, portanto, a humildade.

Não seriam usados os atabaques. Esta condição, de ordem absolutamente prática, teria como finalidade evitar que a polícia localizasse as Casas onde se praticaria a Umbanda, pois naquela época todo e qualquer ritual que não fosse católico era reprimido violentamente pela polícia, com a destruição do local e prisão de seus participantes.

Apenas como um adendo, que corrobora, através do Plano Espiritual, a história da origem da Umbanda. Em 1972, em mensagem psicografada por Omolubá comunicada pelo poeta Ângelo de Lys, esse espírito confirmou que a origem da Umbanda no Brasil se deu realmente através do médium Zélio de Moraes.

Como podemos ver as duas entidades que tomaram a frente, desde a origem da Umbanda, são o Preto Velho e o Caboclo. Por essa razão, as entidades chefes de um terreiro de Umbanda são, normalmente, um Preto Velho, um Caboclo, ou uma entidade de igual ou maior nível de evolução, para que as normas ditadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas e por Pai Antônio sejam seguidas fielmente. Também, por isso, o médium, para seu próprio bem, deverá ter sempre uma destas duas entidades como responsável por ele ou, como é dito, normalmente, ser uma destas duas entidades a dona da sua cabeça.

A partir de 1918, O Caboclo das Sete Encruzilhadas ordenou que começassem a fundar novas Tendas, e, até 1935, sete novas Tendas foram criadas, as quais veremos na tabela a seguir.

TENDAS FUNDADAS SOB AS ORDENS DO CABOCLO DAS SETE ENCRUZILHADAS

Nome da Tenda
Presidente
Chefe Espiritual e Linha
Ano
Tenda N. Sra. da Conceição
Leal de Souza
Caboclo Corta Vento – Linha de Oxalá
l9l8
Tenda N. Sra. da Guia
Durval Braz
Caboclo Jaguaribe – Linha de Oxóssi
Antes de 1933
Tenda Santa Bárbara
João Salgado
Pai Elias
1933 - 1935
Tenda São Pedro (!)
Gabriela Dionísio Soares
José Meirelles Alves Moreira
Corina da Silva
Caboclo Sapoéba,
Pai Francisco” e “Pai Jobá.
Pai Vicente

Antes de 1927
Tenda Oxalá
Paulo Lavois
Pai Serafim
1933 - 1935
Tenda São Jorge
João Severino Ramos
Guia Espiritual Ogum de Timbiry
15/02/1935
Tenda São Jerônimo
José Álvares Pessoa
Caboclo da Lua – Linha de Xangô
l935

                 (i)    A Tenda de São Pedro teve seguidamente a mudança de presidentes por problemas de saúde ou particulares




segunda-feira, 18 de novembro de 2019

HISTÓRIA DA UMBANDA 1





HISTÓRIA DA UMBANDA   [1]

Primeira Parte

As religiões monoteístas raramente motivaram o ser humano a aproximar-se de Deus voluntariamente. Na maioria delas esta é uma entidade intocável, inalcançável. Quase todas as religiões monoteístas, senão todas, só falam desse Deus inatingível, enquanto a maioria da humanidade vive marginalizada, abandonada e, muitas vezes, até escravizada. Poderemos, nós os Umbandistas, superar essa dificuldade? Somente se reconhecermos que Deus não está longe do ser humano, mas como disse Jesus “o reino de Deus está entre vós. "O reino de Deus não vem com aparência exterior; nem dirão: Ei-lo aqui! ou Ei-lo ali! pois o reino de Deus está dentro de vós. (Lucas 17:20,21)" Somente se reconhecermos que dentro de cada um de nós existe a centelha divina, somente se consideramos que Deus é onipresente, que Ele está em tudo e em todos e não restrito a um local imaginário para onde somente vão alguns poucos escolhidos.

A Umbanda é uma religião brasileira, baseada nos ensinamentos de Cristo, na comunicação com os Espíritos de Luz e na incorporação de Almas em médiuns, com a finalidade de ajudar aos encarnados na sua busca de evolução, de auxiliá-los em seu equilíbrio neste nosso plano, além de oportunidade aos Espíritos que se manifestam de aqui fazerem uma tarefa dignificante, um trabalho para a caridade, o que também lhes ajudará em sua evolução. Apresentamos, a seguir, uma síntese de sua origem.

Em fins de 1908 uma família tradicional de Neves, hoje São Gonçalo, estado do Rio de Janeiro se via envolvida com um problema que não sabia como enfrentar. Zélio Fernandino de Moraes, um jovem familiar de 17 anos que se preparava para seguir carreira militar na Marinha Brasileira, foi tomado de uma paralisia que o prendia na cama[2], além de fazer com que, nos momentos em que se movimentava tomar posições e falar de forma diferente do seu habitual. Já tinham procurado vários médicos que depois de muito examinar o jovem diziam sempre não saber ou não entender o que estava acontecendo com ele. Sua mãe, como um último recurso o levou a uma senhora negra, benzedeira e médium, que recebia um Preto Velho de nome Tio Antônio. Esperava que recebendo um passe conseguiria a sua cura. A Entidade depois de atender o jovem e lhe dar o passe disse que ele melhoraria e receberia uma entidade de sua falange.

No dia 14 de novembro desse mesmo ano, a família foi surpreendida por uma ocorrência inexplicável. O jovem Zélio sentou-se na cama, e com uma voz que não era a dele, segundo testemunhas, falou: "Amanhã meu aparelho estará curado". No dia seguinte levantou-se normalmente e começou a andar, como se nada tivesse acontecido. A família, que já havia buscado ajuda para sua melhora, com vários médicos e religiosos, não soube explicar o que tinha ocorrido. Um amigo da família, sugeriu então, uma visita à Federação Espírita do Rio de Janeiro, situada em Niterói. Foram a uma reunião presidida por José de Souza, naquele mesmo dia, 15 de novembro de 1908. O dirigente dos trabalhos determinou que ele ocupasse um lugar à mesa, fato raro para aquela época, pois somente tomavam assento em uma mesa kardecista pessoas antigas nos Centros e já mais velhos. Zélio, posteriormente, narrou seu desconforto por estar no meio de pessoas tão conhecedoras do Kardecismo e muito mais velhas que ele.

Transcrevemos, abaixo parte de uma entrevista de Zélio de Moraes, a Lilia Ribeiro, jornalista e fundadora da Tenda de Umbanda Luz, Esperança e Fé.
“Zélio relembrou sua ida à Federação Espírita (de Niterói) em 15 de novembro de 1908:

- Eu estava paralítico, desenganado pelos médicos. Certo dia, para surpresa de minha família, sentei-me na cama e disse que no dia seguinte estaria curado. Isto foi no dia 14 de novembro de 1908. Eu tinha 17 anos. No dia seguinte, eu amanheci bom. Meus pais, que eram católicos, diante dessa cura inexplicável, resolveram que eu iria à Federação Espírita, em Niterói. O presidente era José de Souza. Foi ele mesmo quem me mandou ocupar um lugar na mesa, à sua direita”. A íntegra dessa entrevista está anexa ao final deste livro.

Quando o chefe dos trabalhos deu início à sessão, Zélio tomado por uma força, segundo ele estranha e que ele não conhecia, contrariando as normas que impediam o afastamento de qualquer membro da mesa, e as admoestações que lhe foram feitas, o jovem levantou-se e disse: "Aqui, está faltando uma flor!". Levantou-se, retirou-se da sala. Pouco depois, voltou trazendo uma rosa branca, que depositou no centro da mesa. Essa atitude insólita causou um início de tumulto.

Restabelecida a corrente começaram a se manifestar espíritos que se diziam negros escravos, índios, caboclos, em diversos médiuns. Esses espíritos foram convidados a se retirar pelo presidente dos trabalhos em virtude, dizia ele, de seu estado de atraso espiritual[3]. A insistência dos dirigentes da mesa, para que esses espíritos não perturbassem a sessão, levou a que Zélio, tomado de um espírito, que se dizia de um Caboclo, tomasse a palavra.

A entidade incorporada em Zélio questionava por que eles não poderiam ali trabalhar para ajudar aos encarnados. Uma médium da mesa, perguntou ao espírito que estava incorporado em Zélio:" Porque o irmão, fala nestes termos, pretendendo que esta mesa aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram, quando encarnados, são claramente atrasados? E, qual teu nome irmão?" A entidade respondeu que era um Caboclo e que para ele não fazia diferença um nome, mas que poderiam chamá-lo de Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque para ele não haveria caminhos fechados.

A Alma incorporada em Zélio acrescentou: "Se julgam atrasados esses espíritos dos pretos, índios, caboclos, devo dizer que amanhã estarei em casa desse aparelho para dar início a um culto onde esses negros e esses índios poderão dar a sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados”.

A médium insistiu: Por que você se diz um Caboclo, se vejo em você restos de uma veste sacerdotal? A entidade então lhe respondeu: O que você vê em mim, são restos de uma existência anterior. Fui padre e o meu nome era Gabriel Malagrida. Acusado de bruxaria fui sacrificado na fogueira da Inquisição em Lisboa, no ano de 1761, mas em minha última existência física Deus concedeu-me o privilégio de nascer como um caboclo brasileiro.

O vidente retrucou: Julga o irmão que alguém irá assistir a seu culto?  Perguntou com ironia. E o espírito disse: “Levarei daqui uma semente e dela nascerá uma frondosa árvore. Cada colina de Niterói atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã terá início”. Perguntado que culto seria aquele, a entidade respondeu: será um culto em que todos serão bem-vindos e se chamará Umbanda.


[1] A História da Umbanda chegou até nós, sacerdotes da Casa Branca de Oxalá, através da Jornalista Lilia Ribeiro. Ela que foi a fundadora e chefe da Tenda de Umbanda Luz, Esperança e Fé até sua morte, forneceu-nos todas as fitas cassetes que ela havia gravado com Zélio e ainda vários escritos, dela e de outros chefes de Terreiro, sobre a origem da Umbanda. Nos fez uma única exigência, que somente as divulgaríamos após sua morte. Foi o que fizemos com a autorização da filha de Zélio, Zilméia de Moraes Lacerda. Na verdade, outros Pais de Terreiro já tinham tido esse conhecimento anteriormente, mas foi através do trabalho de Lília Ribeiro divulgado por Mãe Maria de Omolu da Casa Branca de Oxalá, na internet, que se tornou um conhecimento geral, ao alcance de todos, a origem que aqui narramos.
[2] Existem algumas versões diferentes sobre o mal que o acometia; esta que demos, no entanto, faz parte de uma fita gravada que temos onde o próprio Zélio narra esses acontecimentos e foi confirmada em entrevista que fizemos com suas filhas, Zélia e Zilméia.
[3]Fonte: Seleções da Umbanda, em 1975 – Revista editada por Omolubá